O valor económico das mulheres: uma questão de justiça, mas também de produtividade
- 9 de jul.
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Nos últimos anos, assistimos ao reaparecimento de discursos que parecem questionar o papel da mulher na sociedade, no mercado de trabalho e até na liderança. Contudo, os dados económicos e científicos apontam numa direção oposta: as sociedades e as empresas que conseguem aproveitar plenamente o talento feminino são mais produtivas, mais inovadoras e mais competitivas.
A questão da igualdade de género não é apenas uma causa social. É também uma questão económica. Um estudo do McKinsey Global Institute concluiu que o aumento da participação das mulheres na economia poderia acrescentar até 12 mil milhões de dólares ao PIB mundial. Por sua vez, a OCDE estima que a redução das disparidades de género no mercado de trabalho pode impulsionar significativamente o crescimento económico e a produtividade dos países nas próximas décadas.
Ao nível empresarial, a evidência é igualmente clara. Diversos estudos mostram uma correlação positiva entre a presença de mulheres em cargos de liderança e melhores resultados financeiros, maior capacidade de inovação e melhor qualidade das decisões. Equipas diversas tendem a evitar fenómenos de pensamento uniforme, incorporando perspetivas diferentes que enriquecem a análise dos problemas e das oportunidades.
Apesar destes benefícios comprovados, as desigualdades persistem. O Fórum Económico Mundial estima que o mundo “fechou” apenas 68,8% da diferença global entre homens e mulheres e que, ao ritmo atual, serão necessários mais de 120 anos para atingir a paridade. Em matéria salarial, continua a existir um diferencial remuneratório em praticamente todos os países da OCDE, refletindo diferenças de progressão na carreira, acesso a posições de liderança e penalizações associadas à maternidade.
As mulheres continuam também a enfrentar uma realidade invisível nas estatísticas económicas tradicionais: realizam a maior parte do trabalho de cuidado não remunerado, desde o acompanhamento de crianças ao apoio a familiares dependentes. Este esforço, essencial ao funcionamento das sociedades, raramente é refletido nos indicadores de produtividade ou riqueza.
Mas existe outra desigualdade menos discutida e potencialmente mais grave: a forma como a ciência e a inovação continuam frequentemente centradas no corpo masculino. Durante décadas, muitos ensaios clínicos foram realizados predominantemente com homens, levando a que os medicamentos fossem desenvolvidos e avaliados sem considerar adequadamente as diferenças biológicas entre sexos.
As consequências são reais. Mulheres e homens podem apresentar sintomas diferentes para a mesma doença, metabolizar medicamentos de forma distinta e responder de maneira desigual aos tratamentos. Ainda assim, a sub-representação feminina em várias áreas da investigação médica permanece um problema reconhecido por organismos científicos internacionais. O caso das doenças cardiovasculares é particularmente emblemático: muitos protocolos de diagnóstico foram construídos a partir de padrões masculinos, contribuindo para atrasos no diagnóstico e tratamento das mulheres.
A mesma lógica aplica-se a múltiplos produtos e serviços, desde equipamentos de proteção individual até tecnologias e algoritmos que frequentemente utilizam dados predominantemente masculinos na sua conceção. Quando metade da população é insuficientemente considerada no desenho de soluções, todos perdem: as mulheres, em primeiro lugar, mas também as organizações e as economias que deixam de beneficiar de melhores produtos, mais inovação e maior eficiência.
Defender a igualdade de oportunidades não é ignorar diferenças entre homens e mulheres. Pelo contrário, é reconhecer que essas diferenças existem e que, precisamente por isso, devem ser adequadamente consideradas. Eu costumo afirmar “Eu não quero ser igual aos homens. Eu quero poder ser como sou, porque sou mulher e por isso sou muito diferente de um homem.” O verdadeiro desperdício económico não é investir na igualdade; é continuar a desperdiçar talento, conhecimento e potencial produtivo.
Num momento em que surgem vozes a defender retrocessos, vale a pena recordar um facto simples: as sociedades que valorizam plenamente as suas mulheres não são apenas mais justas. São também mais prósperas. E essa é uma evidência que a ciência e a economia têm vindo a confirmar, de forma cada vez mais inequívoca.
Estamos em julho e aproximamo-nos do período de férias. Para muitas famílias, este é um tempo de descanso. Mas nem sempre é um tempo de descanso para todos.
Apesar dos progressos alcançados nas últimas décadas, as mulheres continuam a assumir uma parcela desproporcionada do trabalho doméstico e de cuidados não remunerado. A OCDE identifica precisamente esta distribuição desigual das responsabilidades familiares como um dos fatores que mais contribuem para as desigualdades de género no mercado de trabalho.
A ONU Mulheres estima que as mulheres realizam, em média, pelo menos duas vezes e meia mais trabalho doméstico e de cuidados não remunerado do que os homens, dedicando diariamente mais 2,8 horas a estas tarefas. Quando chegam as férias, esta realidade nem sempre desaparece. Em muitas famílias, são ainda sobretudo as mulheres que planeiam viagens, organizam horários, preparam malas, gerem as necessidades das crianças e asseguram o acompanhamento dos familiares mais velhos.
A investigação tem vindo a designar parte deste trabalho invisível como mental load ou carga mental: o esforço permanente de antecipar necessidades, planear tarefas, coordenar agendas e garantir que tudo funciona no dia a dia familiar. Embora raramente contabilizado, este trabalho exige tempo, energia e atenção, influenciando o bem-estar, as oportunidades profissionais e até a disponibilidade para o descanso.
Estes exemplos recordam-nos que a igualdade não se mede apenas nos salários, nos lugares de liderança ou nos indicadores económicos. Mede-se também na forma como distribuímos responsabilidades, valorizamos o trabalho de cuidado e reconhecemos contributos que permanecem demasiadas vezes invisíveis.
Sempre me considerei uma defensora da igualdade e não particularmente uma feminista. Ao longo da minha vida, defendi que qualquer profissão, organização ou equipa beneficia da presença equilibrada de homens e mulheres. Nunca me identifiquei com grupos exclusivamente femininos, porque acredito que a solução não está em criar novos muros, mas sim em promover a colaboração, o diálogo e o conhecimento mútuo entre homens e mulheres.
No entanto, perante alguns discursos e práticas que parecem querer relativizar ou mesmo reverter conquistas que julgávamos adquiridas, dou por mim a reconsiderar essa posição. Talvez ser feminista seja, simplesmente, continuar a defender que o talento, o mérito e a dignidade de uma pessoa não devem depender do seu género. Se assim for, então talvez seja tempo de assumir que também eu sou feminista.


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